Como viver com DPOC -
Por isso eu costumo perguntar aos doentes: quer deixar de fumar ou só acha que deve?
1 - Que precauções deve uma pessoa tomar, uma vez identificada a DPOC, ainda que em estádio inicial? Que fazer para que a doença não venha a ter maior gravidade?
Uma vez diagnosticada a DPOC é fundamental conseguir a cessação tabágica, se a exposição ao tabaco não tiver terminado anteriormente ao diagnóstico, uma vez que o tabaco é a principal causa da DPOC e o principal factor prevenível da evolução para uma maior gravidade da doença.
Outras precauções importantes são reduzir a exposição a poeiras, gases e químicos inalados tanto em casa, como na actividade profissional, como ainda no exterior (poluição industrial, automóvel).
2 - E nos casos mais graves, quais os comportamentos mais aconselháveis?
Para além da já referida necessidade de cessação tabágica que nos casos mais graves se torna ainda mais necessária e urgente, é importante existir um bom controlo da exposição a outros factores de poluição do ar e cuidados com as grandes variações atmosféricas e de temperatura (calor extremo, frio e humidade excessiva).
Nas situações mais graves e sob medicação inalatória regular é fundamental cumprir esta medicação, cumprir as instruções médicas para as crises ligeiras que se controlam com aumento da medicação, e mais importante tratar rapidamente as crises mais intensas que habitualmente estão associadas a infecções.
Os sinais de alerta destas crises graves, causadas pelas infecções brônquicas, são: aumento da dispneia, cor amarela/esverdeada da expectoração e aumento do volume da mesma, com ou sem febre.
3 - Mesmo sendo uma doença crónica, os doentes com DPOC podem melhorar. Até que ponto, tendo aqui em atenção os diferentes graus de gravidade da doença?
O objectivo principal do tratamento da DPOC é alterar o declínio da capacidade respiratória (função respiratória avaliada por espirometria em que o parâmetro principal é o FEV1), isto é, o aumento da gravidade da obstrução das vias aéreas.
Actualmente é possível travar a evolução da obstrução com medicamentos e muitas vezes melhorar a gravidade da obstrução.
De qualquer forma, a capacidade dos medicamentos em reverter a obstrução é muito inferior à que se pode conseguir na asma.
É fundamental prevenir e tratar rapidamente as crises graves pois estas são responsáveis pelo declínio acelerado da obstrução e é por vezes difícil de regressar ao nível anterior à crise.
Em qualquer estádio de gravidade da doença o grande objectivo é estabilizar a função respiratória e os sintomas (principalmente a dispneia ou falta de ar) e isso é conseguido tomando regularmente a medicação, evitando e tratando rapidamente as crises e efectuando exercício físico regular.
4 - Que conselhos daria às pessoas em relação a tabagismo, quer antes quer depois de diagnosticada a DPOC?
Bom, já falei da importância fundamental da cessação tabágica na DPOC, não só porque previne a doença como por ser a melhor medida para travar a evolução da gravidade da obstrução.
Todos os fumadores fumam porque têm prazer, mas o tabaco tem custos para a saúde das pessoas. Como o fumar dá prazer aos fumadores (nem todas as pessoas têm a prazer a fumar) para se deixar de fumar tem de se abdicar desse prazer. Por isso eu costumo perguntar aos doentes: quer deixar de fumar ou só acha que deve?
Se se acha que se deve é muito difícil obter resultados porque não estão reunidas as condições psicológicas para abdicar do prazer.
Se se quer então temos ao nosso dispor vários medicamentos para conseguir atingir esse objectivo.
Há que pensar se o prazer actual vale os prejuízos para a saúde que irão acontecer no futuro (às vezes uma ida à urgência do hospital é suficiente para se perceber o que pode ser a vida futura comprometida pelo tabaco).
5 - Quais os medicamentos mais apropriados, consoante os diferentes graus de DPOC?
Os medicamentos fundamentais para o tratamento da DPOC são os broncodilatadores, seja para alívio momentâneo seja para tratamento regular.
A via inalatória (aquilo que as pessoas conhecem por “bombas”) é preferencial porque assim conseguimos ter uma dose maior do medicamento nas vias aéreas, onde é necessária, e menos no resto do organismo, onde não tem efeito sobre os pulmões.
Não se deve confundir a utilização dos inaladores para alívio, com a utilização regular de broncodilatadores que também é feita através dos inaladores.
Os principais broncodilatadores são os Beta-agonistas de curta acção (salbutamol, terbutalina), os Beta-agonistas de longa acção (formoterol, salmeterol), os Anti-colinérgicos de curta (ipratrópio) e longa acção (tiotrópio) e a aminofilina/teofilina.
Quando a gravidade aumenta e existem agudizações frequentes da DPOC são usados, em associação aos broncodilatadores, os derivados dos corticóides de forma inalada e que têm efeito tópico, não sendo absorvidos em dose significativa (beclometasona, budesonido, fluticasona).
6 - Qual a sua opinião sobre a frequência com que se deve realizar a espirometria ou outro tipo de avaliações?
A espirometria é um teste da função respiratória fundamental na DPOC, tanto para confirmar o diagnóstico de DPOC (este não é feito com uma radiografia do tórax) como para avaliar a evolução e controlo da doença. Da mesma forma que se mede a tensão arterial para avaliar a Hipertensão e a glicemia na Diabetes, na DPOC mede-se principalmente o FEV1 por espirometria.
Quanto mais grave for a DPOC mais frequente deve ser a realização de espirometria.
Assim nos casos ligeiros e moderados podemos fazê-la uma vez por ano. Nos casos graves e muito graves o ideal seria efectuar espirometria em todas as consultas.
Nos doentes muito graves e com deficiência de oxigenação (hipoxémia) e que estejam a fazer oxigénio é fundamental avaliar os gases (O2 e CO2) no sangue arterial por punção da artéria radial, mas por vezes pode ser suficiente avaliar indirectamente a saturação de O2 por sensor num dedo da mão (oximetria).
7 - Que tipo de cuidados domiciliários pode o doente ter, particularmente nos casos mais graves, por exemplo a necessitar de oxigénio?
O doente com necessidade de oxigénio é um doente muito grave, isto é, tem DPOC com insuficiência respiratória.
Neste caso, os pulmões já não têm capacidade para extrair o oxigénio do ar ambiente em quantidade necessária, pelo que se adiciona oxigénio através de cânulas ou máscaras ligadas a reservatórios (balas de oxigénio gasoso comprimido ou líquido) ou aparelhos que extraem o O2 do ar (concentradores).
Para que este tipo de tratamento seja eficaz estes doentes têm de conhecer muito bem estes dispositivos (funcionamento correcto, limpeza, duração das cargas, substituição regular).
Não se deve ultrapassar a dose definida pelo médico (por exemplo 1 ou 2 litros/min durante 16 horas por dia) que foi calculada pela gasometria arterial ou por oximetria, porque uma dose alta de O2 pode levar à paragem respiratória.
8 - Em que situações se deve recorrer ao hospital e quando é que pode, ele próprio, tomar medidas necessárias para gestão das exacerbações?
Em todas as crises da DPOC, que habitualmente consistem no aumento da dispneia (mas que por vezes se acompanham de aumento da tosse e da expectoração) deve-se utilizar o broncodilatador de alívio, até um limite razoável (4 vezes por dia, para além da medicação regular) Se a dispneia não aliviar de forma a poder realizar as actividades diárias ou se houver sintomas que possam ser causados por uma infecção deve ser contactado o médico quanto antes.
Se esta crise grave não for resolvida com as indicações médicas, deve-se recorrer à urgência, pois aí para alem de uma avaliação mais correcta do estado clínico do doente e de uma eventual necessidade de internamento, é possível efectuar tratamento com oxigénio e medicação endovenosa.
É fundamental que os doentes saibam que a necessidade de recorrer à urgência ou a um internamento é um sinal de extrema gravidade na DPOC, e com elevada mortalidade. A titulo de comparação estas situações graves equivalem a um enfarte do miocárdio para quem tem doença coronária. Assim é essencial não só tratar rapidamente estas crises graves, como a sua prevenção é crucial para se poder aumentar a sobrevida dos doentes.
sábado, 21 de março de 2009
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